Bárbara Lemos
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CARTA ABERTA AOS MÉDICOS (principalmente PEDIATRAS)

CARTA ABERTA AOS MÉDICOS (principalmente PEDIATRAS)

Caros doutores/doutoras

Infelizmente vivemos num país em que muitas vezes os doutores são tidos como pessoas especiais, superiores aos “comuns mortais”. E o grande problema reside quando são os próprios doutores a sofrer desse mal! Digo-vos uma coisa, também eu sou doutora e não é por isso que me sinto assim, não me esqueço nunca que antes de ser doutora sou um ser humano e sou mãe …

Estou cansada do estereótipo que os médicos fazem de que os utentes/pacientes/mães e pais de crianças doentes sejam todos uns exagerados. Infelizmente já por diversas vezes sofri na pele este tipo de tratamento baseado neste estereótipo simplesmente ridículo! E ontem foi mais um dia…

Tendo uma filha com problemas neurológicos, nomeadamente uma Leucomalácia Periventricular e uma encefalopatia Epiletica Mioclónica , dirigi-me ontem ao hospital onde fui super bem atendida por 2 médicas (mesmo sem se identificar, pareceram-me ainda internas da pediatria). Prontamente expliquei todo o caso, tinha a minha filha com vómitos e diarreia derivado de uma gastroenterite de 1 semana atras, com recusa alimentar e totalmente prostrada sem sequer conseguir estar sentada, mal segurava o pescoço. As médicas pediram para despir a minha filha para fazer o exame e estava tudo a correr bem. Até que entra uma suposta especialista que, apenas baseada no diagnóstico neurológico da minha filha, que havia informado previamente às internas, e sem sequer tocar na minha filha, passou-me um atestado de burrice e simplesmente me mandou embora com o diagnóstico de gastroenterite (quadro que já vinha há 10 dias) e que o estado de letargia da minha filha seria derivado da sua condição neurológica… eu bem tentei explicar que a minha filha não era assim, que andava, que se sentava bem, mas não foi suficiente: nem me quis ouvir… vim para casa com um sentimento de revolta gigante, mas não podia fazer nada. O certo é que o quadro da minha filha manteve-se e hoje de manhã, já sem qualquer reacção voltei para as urgências onde finalmente fui atendida por uma especialista que ouve os pais, e infelizmente.. a minha filha ficou internada com um quadro de hipoglicemia, total apatia, e mesmo sob medicação, não conseguiu recuperar desenvolvendo ainda crises de epilepsia que andavam nos últimos tempos controladas.

Tudo isto podia ter sido evitado se aquela médica me tivesse ouvido e não me tivesse julgado como uma exagerada… também eu trabalho todos os dias com crianças e muitas vezes percebemos que os pais não ajudam, mas não podemos tratar todos os pais como se fossem exagerados ou hipocondríacos. Desde que a minha filha nasceu que tenho lutado contra esse estereótipo e sinceramente, já chega… foram precisos 9 meses e muito mais de 10 médicos diferentes para alguém acreditar em mim e conseguir fazer a ressonância que levou ao diagnóstico do problema de saúde da minha filha!!!

Ouçam os pais sem qualquer juízo pré-estabelecido, ponham o bem-estar da criança acima de tudo e desçam do pedestal em que muitas vezes se encontram… infelizmente ainda há muitos médicos sem vocação, que foram para medicina ou porque tiveram nota ou pelo estatuto social que daí advêm… mas então na pediatria, é preciso uma sensibilidade especial, quer para as crianças quer para os pais que muitas vezes estão em total desespero.

Felizmente, este texto não se aplica a todos os médicos, a todos os pediatras.. felizmente tenho, nos últimos tempos, estado rodeada de profissionais simplesmente maravilhosos, mas ontem não foi o caso… o internamento da minha filha era algo totalmente evitável…

Não conseguem imaginar a revolta que sinto por ver a minha filha assim, por ontem eu não ter dado um murro na mesa e exigido que voltassem a ver a minha filha. Ninguém merece passar por tantas provações, não mesmo, muito menos uma criança de 2 anos. É surreal… é uma dor e um sentimento de impotência tão grande… como mãe não busco a perfeição para as minhas filhas, procuro apenas dar-lhes a melhor qualidade de vida possível e no caso da mais pequenina, lutar para que ela consiga ser o mais independente possível!

Já me alonguei, já me dispersei, mas tudo isto para pedir para que situações como estas não voltem a acontecer. Senhores(as) doutores (as), acreditem nos pais e acreditem no instinto de mãe.. afinal ninguém conhece melhor um filho que a sua mãe. Vocês médicos estão 5-10 minutos com a criança, têm de valorizar mais o que um pai e uma mãe dizem.

E por aqui me fico, longe da minha filha mais velha e sentada num sofá num quarto de um hospital ao lado da caminha onde a minha filha está deitada, a soro, a ver se consegue recuperar…

1 Comment
  • sameiro fernandes
    Posted at 00:27h, 20 Setembro Responder

    Concordo plenamente, força as melhores para a Rafinha

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